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A alegria quieta da ausência

A ALEGRIA QUIETA DA AUSÊNCIA

Há um lugar deslocado aqui dentro, faltoso do concreto, mas cheinho da substância dos sonhos, das ideações, dos prazeres imaginados e infinitamente deliciosos. O que falta a essa vacância injustificável é também o que a preenche, e tanto mais vazia esteja, mais transborda dos sentimentos que a ausência costura nas fibras desse abismo.

            Como quem dança num salão ecoante de deserto, o pensamento povoa a ausência com movimentos amplos. No tablado da orquestra, o silêncio soa valsas. O isso brilha, nunca oculto, em reflexos por entre os passos de pares que não se abraçam. E, na falta dos braços, o abraço é o ar. O calor que não existe fala da quentura que um dia arrepiou nuca e espinha, de memória entranhada, assombrada de perdas. Só se perde o que se teve; só o que se teve é que se pode, mesmo perdido, reter.

            Que alegria quieta se acerca do peito vago, da língua pousada...! A quietude faz a saia leve desobedecer ao vento já conhecido e guardado em seus percursos ainda ali. O que deixa de palpitar, passa a ser canção em harmonia dentro do cérebro. O que não cessa de doer, também embala o corpo ao ritmo do não-ser por já ter sido. É assim que a alegria se posta como cúmplice da ausência. E é assim que poreja em lágrimas desidratadas, justo tempero da espera fertilizada por si mesma.

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