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Carta antiga

CARTA ANTIGA

Meu amado:

ouço mais uma vez tuas palavras lavradas em veludo.

Por vezes, elas são sussurros,

ordens, exigências urgentes, apelos irresistíveis.

Como agora, estão embaladas em música.

Meus ouvidos não ouvem; sonham.

Pergunto-me como posso emudecer junto a ti,

se tudo o que eu sempre quis,

se em cada coisa que conquistei,

era a tua presença que eu procurava.

Apesar disso, tua materialidade me assusta.

Como pode um amor perfeito assim ser verdadeiro?

Tua existência persistente é minha dúvida.

O aconchego de útero cheio no teu abraço,

teus dedos inquietos, teu beijo leve ou profundo,

teu corpo todo em ritmos

estão nos meus braços, nos meus dedos, no meu beijo.

Quando, como agora, o cotidiano áspero me acorda,

eu te guardo em mim, achando que tu és só isso.

Mas nessa hora, quando eu te transformo em mim,

tu te rebelas, reclamando a parte que não sou eu

e que me faz te querer tão doidamente

ao transformar em vazio absoluto o que ficou.

 

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